Sobre a minha profissão: a minha versão mais nova estaria orgulhosa de mim?
Eu sempre fui uma criança criativa. Desde muito nova imaginava, escrevia e ilustrava as minhas próprias histórias. Escrevia livros, desenhava, colava, dobrava e se fosse preciso, descartava e fazia tudo outra vez, sem medo de errar.
Sempre devorei e colecionei livros de todos os gêneros. Uma das recordações mais afetivas que tenho é de quando com apenas três ou quatro anos de idade, minha mãe me levava na biblioteca da escola que eu estudava, e coincidentemente ela dava aulas, para escolher um livro emprestado e levá-lo para a casa. Era sempre uma euforia e ansiedade imensa. Eu sempre escolhia os mesmos livros – na época eu tinha livros de conforto, aqueles que eu julgava preferidos e que não importava o tempo que passasse ou quantas vezes eu teria lido, eu sempre voltaria a escolhê-los, e 'menina bonita do laço de fita' era um deles.
A minha infância inteira e um pouco da adolescência foi tomada pelo hábito da leitura. E quando minha mãe me questionou o que eu gostaria de ser quando crescesse, automaticamente e sem pensar, eu disse: veterinária. A verdade é que eu nunca tinha de fato pensado em um futuro, eu estava muito ocupada criando mil possibilidades na minha cabeça e, então, minha mãe voltou a dizer "e se você fosse jornalista?". E foi aí que eu soube, eu tinha nascido pra isso.
E desde então, com doze ou treze anos, noventa por cento das minhas pesquisas na internet eram sobre a profissão. Eu passava horas procurando faculdades renomadas, cursos profissionalizantes, vídeos de pessoas que ingressaram na área e ranking de pisos salariais inexistentes. Eu realmente gostaria de ser jornalista. E claro, escrever nos meus inúmeros blogs era uma das formas de estar mais próxima do meu sonho, afinal, eu queria ser redatora.
Anos se passaram e eu decidi. Eu queria escrever, claro. Mas, mas do que isso, queria escrever para portais de moda e comportamento. O mundo digital me interessava muito e a ideia de trabalhar com jornalismo de moda era mais do que certo pra mim.
Era dois mil e dezoito, ano de vestibular. O hábito da leitura não se fazia mais presente no meu dia a dia. Eu ainda me considerava criativa, mas ainda não tinha certeza se era o suficiente. Nessa época da vida, tudo o que eu mais queria era ter certeza de algo, assim como anos atrás. Mas, infelizmente, como noventa e nove por cento dos vestibulandos, a realidade é brutalmente colocada a prova e crescer fica assustador demais. Eu me cobrava, me comparava, sabia que tinha pessoas mais inteligentes e, pasme, também mais criativas que eu. E quando se é adolescente, aquilo parece o fim do mundo, mas a real é que não é. A escola não é o seu futuro e o seu futuro não é a nota baixa que você tira na aula de redação.
Mesmo me sentindo insegura, prestei os vestibulares. No ano seguinte entrei na faculdade de jornalismo e tudo começou a fazer sentido novamente. Era incrível como as aulas pareciam ter sido milimetricamente planejadas pra mim e para o meu futuro. Já não haviam mais dúvidas, eu estava no caminho certo, no momento certo e com as pessoas certas. Eu ainda queria ser jornalista de moda e trabalhar na redação mas, naquele momento, eu sonhava ainda maior e queria estar nos maiores portais de moda e comportamento do Brasil e, quem sabe, do mundo.
Anos se passaram e eu me formei com um grande dez na banca final do meu trabalho de conclusão de curso, que falava sobre a representatividade negra no ballet clássico. Um trabalho lindo e sensível que fiz sozinha, contando um pouco sobre a minha história e também de outros bailarinos com trajetórias similares às minhas.
O fim da faculdade foi um misto de sentimentos. Além de um diploma, ele me trouxe outros questionamentos sobre o que de fato eu queria fazer da vida. Eu já tinha vinte e dois anos e precisava de um trabalho formal, de dinheiro, de um pouco de estabilidade e rotina. E nesse processo percebi que tudo é tempo e que o tempo não espera, na verdade o tempo te engole e te faz agir como qualquer pessoa adulta agiria. Tive que deixar alguns sonhos de lado, ou talvez apenas colocá-los para dormir por um tempo. Trabalhei com o que apareceu, com coisas que nunca imaginei fazer, e muitas vezes me peguei pensando se era isso que significava crescer: engolir o choro e o orgulho, adiar vontades e seguir em frente mesmo sem saber muito bem o porquê. Fui entendendo que amadurecer não é só sobre alcançar metas, mas sobre aceitar os caminhos que a vida impõe enquanto a gente tenta, com o que resta de fôlego, manter acesa alguma faísca do que sonhou um dia.
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